Escritos

Versos escritos, sem voz ou quadro, as palavras no ninho.

 
 
  Pena   Frutas macias caídas do pé esquecidas no jardim Tempo atropelou devagar Ninguém viu a maçã  apodrecendo o sumo da vida?   Ilana Eleá   Imagem:  Lumeah Photography

Pena

Frutas macias
caídas do pé
esquecidas no jardim
Tempo atropelou
devagar
Ninguém viu
a maçã 
apodrecendo
o sumo da
vida?

Ilana Eleá

Imagem: Lumeah Photography

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[Poesia de Domingo] Acordei vindo. Até aqui para olhar palavras. As que tocam como os pés no mar, a areia: não afogo, alcanço. A completude do sol céu sal mar e grãos de areia. A errância graciosa dos pés, ora nado, ora mundo. Silêncio debaixo das ondas. O corpo quase nu, arrepiando. Tanto verso pinga no meu chão, escorre pelos passos dentro de casa, molha o azulejo: vim desse mar.

 

 

  [  Samba de quem foi]    O samba de quem foi embora do país molha O rio antigo se expande para dentro do tenis ensopado cabendo a nostalgia da chuva nos passos nas poças por onde passe Carnaval.  Aquele cotidiano da memoria alegre abre-alas Batuque ritmado com as mãos pra cima amigas cantando junto o refrão e letras inteiras no Rio, na Lapa, na Ilha na Vila.  Vesti fantasia e lembro da bateria ao vivo inconfundível percussando o coração pelo Tan-tan e tamborim.  Céu aberto pro calor suar a melindrosa fantasia penacho na cabeça mirim gastando a sapatilha dourada no salão, trem de crianças na serpentina puxando o sorriso que a dança sempre trouxe Às rodas, desde a infância aglomerando devagar.  Era o corpo aprendendo o que e o como se ginga convida samba até a identidade.  O samba de quem veio embora É bonito Inteiro e roda sem parar segue rasgando o peito abre o chão mas não posso voltar.  Aqui chove frio no casaco mesmo se é verão mas os militares tem coturno com cadarço colorido na parada gay e o cartaz ao tanque avisa: "Estamos prontos para Os próximos passos".  Não os do samba, sabemos -  falta dança nessa minha nova casa Caravana mas a voz das minorias cabe nesse país nórdico do pandeiro falhando.  Suécia inaceita Machismo Homofobia Corrupção Racismo isso ja dá ao texto Ritmo e faz do samba um imigrante amado No meu coração.   Créditos: Imagens do samba no Brazilian Day Stockholm 2017 - Johan Averstedt Mas que nada - música cantada por Caravana do Ritmo no Brazilian Day Stockholm 2017 Imagens dos militares na Stockholm Pride 2017 - Aninha Franco Imagens do canto durante a Stockholm Pride 2017 - Priscila Annibal  Videopoema:  https://www.youtube.com/watch?v=-CsO8dw5EWQ

[Samba de quem foi]


O samba de quem foi
embora
do país
molha
O rio antigo
se expande
para dentro do tenis
ensopado
cabendo a nostalgia
da chuva
nos passos
nas poças
por onde passe
Carnaval.

Aquele cotidiano
da memoria alegre
abre-alas
Batuque ritmado
com as mãos pra cima
amigas cantando junto o refrão
e letras inteiras
no Rio, na Lapa, na Ilha
na Vila.

Vesti fantasia e lembro
da bateria ao vivo
inconfundível
percussando o coração
pelo Tan-tan e tamborim.

Céu aberto pro calor
suar a
melindrosa fantasia
penacho na cabeça mirim
gastando a sapatilha dourada
no salão,
trem de crianças na serpentina
puxando o sorriso que a dança
sempre trouxe
Às rodas, desde a infância
aglomerando devagar.

Era o corpo aprendendo
o que e o como se ginga
convida
samba até a identidade.

O samba de quem veio
embora
É bonito
Inteiro e roda sem parar
segue rasgando o peito
abre o chão
mas não posso voltar.

Aqui chove frio
no casaco
mesmo se é verão
mas os militares
tem coturno com cadarço
colorido na parada gay
e o cartaz ao tanque avisa:
"Estamos prontos para
Os próximos passos".

Não os do samba,
sabemos - 
falta dança
nessa minha nova casa
Caravana
mas a voz das minorias
cabe nesse país nórdico
do pandeiro falhando.

Suécia inaceita
Machismo
Homofobia
Corrupção
Racismo
isso ja dá ao texto
Ritmo
e faz do samba
um imigrante amado
No meu coração.


Créditos:
Imagens do samba no Brazilian Day Stockholm 2017 - Johan Averstedt
Mas que nada - música cantada por Caravana do Ritmo no Brazilian Day Stockholm 2017
Imagens dos militares na Stockholm Pride 2017 - Aninha Franco
Imagens do canto durante a Stockholm Pride 2017 - Priscila Annibal

Videopoema:
https://www.youtube.com/watch?v=-CsO8dw5EWQ


[Solstício de Verão]

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Minha filha com guirlanda
De flores frescas
na cabeça
Colhidas hora atrás
Pelo bosque
Em cesto de tiras
Pela filha, pela avó
Sogra da amiga.
 
Fada com menos de
Dois anos de idade
A minha filha
E as folhas colhidas
Verdes de verao
Balancam para a festa
Do sol.
Tradicoes na sua fronte
Violeta
Sueco-brasileira
De pessoa crescendo
Nas intersecoes
Fogo caldo falo e
Flor de culturas.
 
Os nordicos queridos
Saudam a chegada
Do dia mais longo de sol,
Disse Isabel,
Quando relogio planetario
Transforma-se
E esse dia eh hoje,
em junho,
quando
Bandeiras azul e amarela
saudam
Anfitrias aladas
A chegada da estacao
Dos mergulhos nos lagos
Escuros, 
Pelos deques de madeira,
Pelo silencio do arquipelago
Deserto
Abrindo passagem para os barcos
Familias nas pedras, nas ilhas
Amantes Com garrafas termicas
Mais cestos
E frutas ate o final do dia
Que clareia cedo
As 3 da manha. 
 
Noites curtas sao o
Verao
E o vestido bordado
Pelas maos francesas da Christelle
Agora veste a Liv,
Filha crescente
Na caravana de carros
Enfeitados por
Galhos vivos
Nos uivos extasiados
Dos que amam a patria
O sol,
A virada chegada de mais
Uma estacao, 
A da colheita, 
a que se danca em circulo
Em que se roda amores
Nas casas de campo.
 
Ha vasos com flores
Pelos cantos das mesas
Rastros da floresta
Escutam a cantoria
entoada
Batendo copos
Curtos
Com Snaps alcoolicos
Dourando destilados
Naquelas cancoes
vikings
Suecos sabem de cor
Aumentando volume
Arfando o peito
Ate os trilhos dos trolls
Esquecerem seus lugares
Tomados pela bonanca
Skåll! 
Do pertencer-se. 
 
Enquanto isso, 
Venho da terra
Onde junho É mes
De festas juninas
De sapatilha
Com bandeirinhas coladas
No barbante,
A quadrilha ensaiada
Mes inteiro para os passos
Interiores do brasil, sanfona
E vontade ritmada de
milho verde
Maca vermelha
tinindo amor
Nas barracas
Com fogueira
Para pular,
Estalinho no
Arraiá. 
 
Mas meus filhos
Crescem em solo
Que celebra
O descongelar-se
Com a rede de peixe,
Batatas sem casca
sao frescas, sao frescos
Os ovos tambem
Vem com terra do quintal
Meus filhos crescem
Com a terra florida
calcando
Quando se festeja o sol
Como sagrado
Raro-luz.
Nos quatro com guirlandas
Meus meninos tambem
vestem flores
Na Suecia linda feminista
Nesse cessar da espera
Pela liberdade
Que o Midsommar, solsticio
De verao,
Nos traz.


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[Mil folhas]

As árvores chiando imensas vejo pela janela da casa, finos braços dançando folhas. Pensei que vento andasse junto no passo, satisfeito na sua transparência assoprada, mas a coreografia que vejo complexa os gestos arbustos. O mesmo vento assopra cada galho para balé próprio, a melodia suave de instrumento folhas gira, tronco, gira rodamoinho pela liberdade verde das sementes em transe, na espera do solo certo. O rumor do ar a caminho de uma nova ilha pede trilho. Pela janela desse andar segundo da casa vejo; do alto tronco estico passos na sapatilha como as árvores no quintal cantam. Raiz finca a espera, a minha e a delas. Serena a busca se há dança com o que te venta a alma.


[Oliveiras em Pó]

oliveiras em po

No Salento, esse trecho
Da Puglia italiana
A cor dourada das pedras
Cobre arvores e cactos
Como poeira do tempo
Abaixando o ceu, 
Uma reliquia.
 
As oliveiras
sao arvores
Das folhas em
Verde
dessaturando-se
Em cinza, 
Lanceoladas pratas
ervas
Para chas na xicara
E azeite cotidiano.
 
Essa terra tomada
Por pó
E areia nos tons
Faz da nossa silhueta
Um engano acerto:
A historia volta
À roda,
Às festas de Sagre
Ao vinho em companhia
Derramando tacas.
 
O mar Jonico nesse
Julho iniciado
Transborda
O canto dos corpos
Azeitonados
Pela paz turquesa
Das suas águas
Enxaguando
Vidas desses tamanhos.
 
Estender-se
Ao varal
Faz voltar o tino
Lentamente:
Perco a tramontana
ébria
de amor?

Precisei de versos
- na árida Puglia as oliveiras tem cor de poeira e tempo passado, ressucitam historias.


  Espera glacial   (Para  Isi de Paula  e nosso grupo  Mulheres Leitoras - Estocolmo  pela inspiração)  A escuridão tarda a tarde como madrugada.  A escuridão  inverna a espera glacial por um sorriso solto na boca sem casaco, nos pés a grossa lã.  A escuridão  convida à volta do exílio molha a face dormente de chuva.  A escuridão  resiste.  Permanecemos pelo encantado das noites pincelando  vigoroso a luz do dia com A escuridão: convite para acender-se sem fuga.  O breu passa pelo eixo e segue embora na primavera.  O breu abre a espera do céu rosado luz inacreditável da Suécia uma vez verão.  O breu cozinha  bolo de fubá chama por mainha, O breu sabe inspirar e guarda o que virá.

Espera glacial

(Para Isi de Paula e nosso grupo Mulheres Leitoras - Estocolmo pela inspiração)

A escuridão tarda
a tarde
como madrugada.

A escuridão
inverna
a espera glacial
por um sorriso
solto na boca
sem casaco,
nos pés
a grossa lã.

A escuridão
convida à volta
do exílio
molha a face
dormente de
chuva.

A escuridão
resiste.

Permanecemos
pelo encantado
das noites
pincelando
vigoroso
a luz do dia com
A escuridão:
convite
para acender-se
sem fuga.

O breu passa
pelo eixo
e segue embora
na primavera.

O breu abre a
espera
do céu rosado
luz inacreditável
da Suécia
uma vez verão.

O breu cozinha
bolo de fubá
chama por mainha,
O breu sabe inspirar
e guarda
o que virá.

bodas

[Bodas]
Encontro
Grávido de futuro
Voce conseguiu ler
Todas as palavras
Meu coracao tinha
Desprovido de idioma.


paura

[Paura]
Mesmo no calor
Fecho as
portas da casa
porque
temo a fuga
A quebra de braço
De perna
O sangue
para fora nas crianças.

Mesmo no verão
Fecho as janelas
porque evito
o espio curioso
nas pontinhas dos pés
arrastado de cadeira
trampolim na cama
voo infantil
até a morte na pedra
calçada.

Passo tranca nos dois
portões do quintal
se os pequenos
brincam
entre tecidos de seda
pendurados
na Magnólia.  

Porque temo a corrida
até a rua
o sumiço
a queda no poço
com água profunda
o rolar da escada
da varanda
nas infâncias.

Cerco os passos
dos pequenos
apavorando
se exploram
e saem
da vista. 

Uma paura.

De acidente
Perda
Desvio
Desatenção.

Mãe das intenções
melhores
Mãe gaiola
Mãe falindo o peito
a respiração
Mãe velha
caducando músculos
Mãe de quartos
e recintos
Sede de jarros nas flores.  

Como se tivéssemos controle sobre o que não possa acontecer. Um cado é cuidado. Outro é vida mesmo, cheia de destino dentro

  

Escala de do.jpg
Vespeiro

Vespeiro

 


Um copo de vinho
tinto
no espelho
da Vespa
estacionada.

Um olhar de vinho
dormente
respira
as pernas.

Uma mulher
em chamas:
A flama
como passagem,
o tempo lambendo
a vida.

Ilana Eleá

Imagem: Lumeah Photography

- 5 graus (poema de Ilana Eleá)

[Menos cinco graus]

 

Voltei da caminhada
disposta
Abrir as janelas da casa
O vento frio
De março
Correndo indomável
Pelos poros do sofá
Fios das cobertas
Marcas no espelho
Páginas nao escritas
Abrir as portas da casa
Para a fotossíntese
Sussurrada por pó
De algum sol
Acreditar-se primavera.

(Ilana Eleá)

mariellepresente bruno debize da motta

#Mariellepresente

Perseguicao brutal
Emparelha na surdina
explícita
O ódio imundo
às idéias progressistas
E valentia
Da mulher brilhante
maré de nós
Marielle.

O ódio torpe em tiros
covardes assassinos
Nos tiro-alva
Acreditando
silenciar
os princípios

Em vão em vão em vão.

A maré de nós
Marielle
Segue em fúria
E luta
tendo ao seu lado
A viva brava
colorida multidão.

(Poema: Ilana Eleá - Ilustracao: Bruno Debize da Motta)